O primeiro exilado

Por Leonel Camasão* Primeiro de setembro de 2018. Jair Bolsonaro, em campanha, afirma que vai “fuzilar a petralhada aqui do Acre”, em agenda naquele estado. Dia 29 de outubro de 2018. Agora presidente eleito, Bolsonaro reafirma no Jornal Nacional que sua intenção é “varrer os marginais vermelhos do país”, e que estes seriam a cúpula […]

24 jan 2019, 17:27
O primeiro exilado

Por Leonel Camasão*

Primeiro de setembro de 2018. Jair Bolsonaro, em campanha, afirma que vai “fuzilar a petralhada aqui do Acre”, em agenda naquele estado. Dia 29 de outubro de 2018. Agora presidente eleito, Bolsonaro reafirma no Jornal Nacional que sua intenção é “varrer os marginais vermelhos do país”, e que estes seriam a cúpula do PT e do PSOL.

Dia 24 de janeiro de 2019. Pressionado pelas ameaças de morte cada vez mais frequentes, Jean Wyllys (PSOL-RJ) desistiu de assumir seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados, ao qual seria empossado no próximo dia 1º de fevereiro. Jovem, negro e gay, seria Jean o primeiro exilado da “nova era”?

O fato concreto é que a Organização dos Estados Americanos (OEA) chegou a solicitar ao Brasil que garantisse a segurança de Jean. O governo fez pouco caso.

A decisão teria ganhado força com a revelação de que familiares do principal suspeito pelo assassinato de Marielle Franco eram lotados no gabinete de Flávio Bolsonaro, agora senador eleito e filho do Presidente da República.

Eleito pela primeira vez em 2010, o parlamentar já faz parte da história do Brasil por ser o primeiro ativista LGBT a assumir uma cadeira no Congresso Nacional. Foi peça fundamental na aprovação do casamento igualitário do Brasil, na defesa dos direitos humanos no Congresso Nacional e das religiões de matriz africana.

A decisão de Jean Wyllys – que já foi considerado a pessoa mais difamada da internet brasileira por meio das Fake News – torna mais grave o quadro político do país. A pergunta que fica é: apenas ele deverá deixar o país para preservar a própria vida? O que restou da nossa democracia será capaz de garantir a segurança dos opositores do atual presidente? Quantos mais deverão morrer?

As reações do bolsonarismo e do próprio presidente preocupam. Um chefe de estado comemora nas redes sociais o exílio de um opositor. Nossa democracia (ainda há?) se esvai no meio do ódio, da intolerância, da confusão das notícias falsas, da incompetência dos veículos tradicionais, que em certa medida colaboraram para o atual quadro do país.

Certa vez, em 2012, durante uma campanha eleitoral, sofri uma agressão homofóbica de um comunicador de Joinville. Eu havia exibido um beijo gay no horário eleitoral e fui duramente atacado e difamado. Jean Wyllys escreveu, naquela oportunidade, em minha defesa, e afirmou: “Orgulho de você, companheiro”.

Hoje, sou eu que reafirmo: Orgulho de você, Jean Wyllys. Onde estiveres, conte com minha solidariedade. Nossa bandeira em defesa dos LGBTs e dos direitos humanos vai continuar!