Porque não devemos culpar as pessoas pelo contágio

Um idoso caminha nas abarrotadas ruas do comércio com máscara no pescoço. Jovens lotam bares após três meses de isolamento. Ônibus e terminais apinhados de gente por todos os lados. Ricaços fazem festas clandestinas em bairros nobres. Imagens como essas se tornaram cada vez mais comuns, e ocupam os noticiários e a boca dos governantes. […]

18 jul 2020, 07:49
Porque não devemos culpar as pessoas pelo contágio

Um idoso caminha nas abarrotadas ruas do comércio com máscara no pescoço. Jovens lotam bares após três meses de isolamento. Ônibus e terminais apinhados de gente por todos os lados. Ricaços fazem festas clandestinas em bairros nobres. Imagens como essas se tornaram cada vez mais comuns, e ocupam os noticiários e a boca dos governantes. A culpa da disparada de casos de COVID-19, afinal de contas, é desse nosso povo ignorante e mal educado! Não há o que fazer!

A ideia – errada, totalmente errada – está ganhando corações e mentes em toda a cidade. Já faz parte da narrativa oficial do Prefeito Gean Loureiro, e assim como o COVID, se espalha rápido. 

Esse raciocínio tem um único e vil propósito: retirar a responsabilidade sobre o genocídio que estamos vivendo dos próprios governantes! Basta olhar as mais recentes declarações de quem está no poder. Para Bolsonaro, a responsabilidade é dos governadores. Já Moisés jogou para os prefeitos. E Gean Loureiro joga para o povo. “Não há o que fazer”. Essa é a ideia principal embutida no discurso: já fizemos de tudo e não tem jeito. “Morra quem morrer”. 

Porque é errado

Se você chegou até aqui nesse texto, por favor, nunca mais reproduza esse argumento. Ele é falso, mentiroso e cruel. E eu explico porque. 

Primeiro. Milhares, eu disse MILHARES de pessoas convivem com extrema dificuldade em se adaptar às regras de isolamento social ou de precauções como uso contínuo de álcool em gel e máscara. Idosos, crianças, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua ou em vulnerabilidade econômica, na maioria dos casos, não possuem os meios para se proteger, sejam eles materiais ou cognitivos. 

Segundo. Essa dificuldade, que já seria natural, é potencializada ao máximo com as mentiras espalhadas e estimuladas pelo presidente. Entre a gripezinha e a cura milagrosa por cloroquina, o papel de Bolsonaro tem sido desinformar, confundir e estimular o retorno à “normalidade”, mesmo que isso custe a vida de milhares.

Terceiro. Outras milhares de pessoas simplesmente não tem a opção de ficar em isolamento social. Seja pela redução de salários, pelo desemprego, pelos atrasos do auxílio emergencial, ou ainda, pelo fato do transporte coletivo ter voltado a operar, muita gente não tem mais como ficar em casa. Esse cenário potencializa ainda mais o contágio. 

A verdade é uma só: Gean Loureiro, Moisés e Bolsonaro fizeram todas as piruetas retóricas possíveis, mas só há uma única saída para preservar a vida: um rígido isolamento social. E para dar conta das consequências econômicas, o governo precisa pagar a conta, auxiliando de fato pessoas e empresas para que a quebradeira seja evitada. Essa é a única solução, que tem dado certo em diversos países tidos como exemplo no combate à pandemia. 

Isso não ocorre porque a parte mais rica da sociedade está se lixando para os mortos. Seguem na linha (falsa) de que a economia não pode parar, e que as consequências econômicas “vão matar mais” do que o vírus. Esse raciocínio, além de mentiroso, é burro. O que temos visto na prática é o prolongamento indefinido de uma quarentena meia boca, que não preserva nem a vida, nem a economia. 

Devemos aproveitar o novo decreto que suspende o transporte coletivo por 14 dias para exigir do governo um verdadeiro lockdown por mais tempo, com as compensações econômicas devidas para que as pessoas não morram de fome nem fiquem desempregadas. Esse é o caminho!